Na verdade, imaginei que, ao se debulhar a idade, poderia desfrutar de algumas comodidades, feito minhas avós, mãe, tias, ou seja, a aposentadoria, o poder curtir a casa de praia, os amigos, sentir-me realizada ao ver os filhos crescidos, independentes, não precisar mais viver debaixo dos ponteiros do relógio a ditar-me os compromissos.
Não é conversa de quem está cansada, frustrada, não! trata-se afinal, de meio século de vida. Sabe o que é isso? Nascer, crescer, crescer, casar, procriar, cuidar e cuidar, esquecer-se de si, trabalhar, ver crescer e crescer os filhos e, finalmente , ganhar asas. Ambos! É aquela história do nascer, crescer, ter filhos, escrever um livro e morrer, pula esta parte.
Mas parece que, ser cinqüentenária no século atual, não é como o ser no tempo em que eu ainda era moçoila...Lembro-me de ter visto minha mãe jovem, adulta, senhora e agora, a contemplo idosa. Assim como lembro-me, perfeitamente, das flores colhidas ou arrancadas pelo vento, de cada estação por ela vivida; assim como dos espinhos que lhe espetavam as mãos, arrancava-lhe sangue, tantas vezes. E como admiro vê-la agora radiante, aos seus 84 anos, mesmo com o peso dos ossos, com a pele toda enrrugada, sozinha em seu jardim antes florido.
Assim como recordo, perfeitamente, de minha avó , com seus cabelos enormes, o penteá-los cuidadosamente e fazer o tradicional cóqui. A pele sem nenhum pó, beleza que vinha d”alma, assim como as de minha mãe e tias. Lembro-me, inclusive, do perfume de minha avó. O mesmo que se espalhava pelos quartos, nas roupas de dormir e que, numa quase doença, os tento manter ainda hoje em cada cômodo de minha memória, da casa, ao repetir o ritual. Não me recordo o dia em que as tenha visto, ao acordar, ainda de camisolas, desalinhadas. Mesmo quando acamadas, impossibilitadas, cuidavam-se antes de nos receber em seus aposentos.
Hoje, ao acordar, olhei-me atentamente ao espelho; pensei se algum filho tem observado as transformações por mim sofridas. Magrela sempre fui e parece que o serei. Mas as mãos, o rosto, os cabelos, estes , a cada dia se aperfeiçoam, sim adequam ao peso de meus ossos, a minha musculatura, perfil. E engraçado que, embora eu nunca as tenha perguntado, como se sentiam diante das mudanças, sinto-me perfeitamente conectada às minhas transformações. É algo que me faz bem, é como olhar o dia surgir a cada amanhecer e deitar-me, já altas horas, com o mesmo coração agradecido. Não temo envelhecer, temo mesmo é as pessoas que insistem em me tirar a paz conquistada. Não gosto de que me façam vestir como se ainda fosse uma moça; que me queiram esconder as imperfeições da pele com máscaras e pós sobre pós, cobrir os meus tão admiráveis cabelos brancos, imediatamente, embora os cubra desde os 25 ,devido a genética, quando todos da família os passam a possuir depois dos 20 anos, sabendo que, hora surge em que os poderei admiti-los, sem medo de ser taxada de cafona.
Não temo as mudanças advindas com o decorrer do relógio na parede; nas transformações que surgem no corpo, temo mesmo é forma cruel como alguns nos reparam e se desesperam diante do renovar da vida. Alguns passam a impressão de como estivéssemos nos desfazendo no tempo e vejo algumas colegas fazendo plástica até no umbigo. O medo do marido não amar mais seu corpo, de não arrumarem mais namorados. Cuidam do exterior e afogam seus desencantos, insatisfações, tantas vezes, em doses e doses de remédios para dormir.
Mudanças. Porque assustam tanto algumas pessoas? Porque perseguem , alguns, falsas aparências, esquecendo-se daquilo que nunca morre interiormente: a alegria verdadeira, o prazer de viver sabiamente, o viver cada momento como ele é, sem máscaras ou medicamentos. Infelizmente, ainda não se criou a plástica interior, a da renovação” almática”.
Breve serei cinqüentenária. Quero ser avó, no tempo certo. Quero conhecer meus netos e bisnetos, porque não tataranetos. Quero que, assim como minha geração, possam ver meu retrato na estante, parede, álbum de família e, ouvi-los dizer “como era bela, vovó! E sentir o afago de suas mãos dentro das minhas, seguros, certos de que atrás de meus cabelos brancos, minhas possíveis rugas, habita alguém que sobreviveu as intempéries da vida.
Ao nascer, deu-me Deus o sopro da vida. Ao morrer, quero devolvê-lo ao criador com a certeza de que meus dias foram cumpridos com garra e orgulho. Que sejam meus cabelos brancos, a seu devido tempo, o véu da pureza de minha alma, sempre criança.



